A Grande Beleza (2013)



Nos antigamentes, quando ouvia falar dos tais indicados ao Oscar, eu acostumado a assistir Cine Trash na Band, e Corujão na Globo, além das sessões de cinema pancadaria das eras áureas de Jet Li e Jackie Chan, pensava na minha ignóbil consciência que os filmes concorrentes a tal premiação eram sempre verdadeiras obras de arte e de visual de incompreensível primor inventivo.
Atualmente eu vejo com desdém grande parte dos filmes-pipoca selecionados porque se fingem de emocionantes, ou trazem algum ator de comediazinha fazendo cara de choro, ou porque o diretor deixou final em aberto pra público ficar discutindo o óbvio sobre um pião ou qualquer coisa do tipo.
E até por isso foi interessante assistir o filme “A Grande Beleza”, e perceber que pra bem ou pra mal, o longa-metragem do diretor Paolo Sorrentino é sim um filme de arte.


Nas primeiras cenas de A Grande Beleza, a direção de fotografia do Luca Bigazzi já mostra a que veio.
É um baita aproveitamento da paisagem-personagem, que chega a resultar em uma morte devido à sua (perdão por ter que re-utilizar a palavra) beleza.


Mas a seguir, tal qual o choque do personagem falecido, é muito similar o do público diante do freak show estrelado pela burguesia italiana, em uma festa de poucos precedentes em se tratando de chinelagem e breguice.
Todos ostentando suas posições sociais enquanto vamos sendo apresentados ao amigos do convívio do protagonista e aniversariante da ocasião: o cínico escritor de um livro apenas, Jep Gambardella (uma baita atuação do Toni Servillo).
A busca pela tal “grande beleza” é o que norteia a vida dele, mas sem muito ser dito a respeito.
O filme simplesmente passeia pelos dias sem se preocupar nem um pouco em estruturar as coisas pro público.
Em grande parte o roteiro deixa aquele tipo de pista que muito cinéfilo curte pra depois conjecturar significados.

Sem dúvidas, amparado pelo trabalho do diretor de fotografia e a trilha sonora composta por Lele Marchitelli, o cineasta possui os recursos pra criar a sua homenagem ao cinema de Federico Fellini, mesmo que isso implique em semelhanças tantas que por vezes pese o pensamento de que, ainda que um filme bem feito, na originalidade ele perca o status de obra-prima que parece ter sido cuidadosamente imaginado pra ser.
Além disso, momentos arrastados dispersam o seu efeito quando as longas festas, e demais arestas sobrando no roteiro povoam (e se repetem) no longa-metragem.
Mas o que o filme faz muito bem é a crítica.
É sutil por vezes, e em outras de maneira muito direta, seja na ligação com a própria arte (não posso acreditar que as perfomances artísticas apresentadas no filme não tenham sido pra provocar riso), com a religião, ou com a degradação dessa sociedade romana decadente chafurdando em suas posses.
Serve pra demonstrar este último, uma coleção esdrúxula de amigos e conhecidos do protagonista que exemplificam de modo seguidamente risível os porquês de essa alta sociedade estar buscando investir seus dias no efêmero e vazio, e que parece ser exatamente o que o personagem de Servillo quer abandonar, algo que ele logo passa a fazer acompanhado da atriz Sabrina Perilli, que aliás, também integra essa cambada de gente sem nada que preste pra fazer.


Ainda assim, na comparação com outros filmes cadenciados no limite, A Grande Beleza é bem menos coeso do que o filme “Amor” de Michael Haneke, por exemplo.
Paolo Sorrentino dirigiu seu filme sem saber se desvencilhar de suas influências o que enfraquece sua obra, mesmo que, sabendo onde o filme “Avatar” conseguiu chegar, é capaz de o júri nem ser capaz de perceber.


Quanto Vale:


A Grande Beleza. Recomendado para: quem curte filmes de arte pra ficar argumentando significados depois.

A Grande Beleza
(La Grande Bellezza)
Direção: Paolo Sorrentino
Duração: 142 minutos
Ano de produção: 2013
Gênero: Drama

Confere NESSE LINK  a crítica de outros indicados ao Oscar 2014.


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